Conhecida no Brasil como um alimento cotidiano e afetivo, a batata-doce ocupa um papel muito mais estratégico na culinária nikkei do que muitos imaginam. O ingrediente, que faz parte da base alimentar de povos da América do Sul há milhares de anos, foi incorporado à gastronomia peruana muito antes da chegada dos imigrantes japoneses — e acabou se tornando elemento essencial no equilíbrio de pratos como o ceviche, um dos grandes ícones da cozinha nikkei.
De origem sul-americana, a batata-doce pertence à espécie Ipomoea batatas e possui centenas de variedades ao redor do mundo, com diferenças de cor, textura e dulçor. Entre as mais conhecidas estão as de polpa branca, amarela, alaranjada e roxa. Na culinária nikkei, a batata-doce de polpa amarela ou alaranjada é a mais utilizada, justamente por apresentar dulçor natural, textura macia e sabor suave, características que favorecem o equilíbrio do prato sem roubar protagonismo dos pescados.
Tradicionalmente, a batata-doce acompanha o ceviche peruano como contraponto à acidez intensa do leite de tigre e à picância dos ajíes. Sua função vai além do acompanhamento: ela atua como elemento de harmonização, suavizando o impacto cítrico, trazendo conforto ao paladar e ajudando a construir uma experiência mais equilibrada e completa. Na cozinha nikkei contemporânea, o ingrediente também aparece em novas leituras, com cortes precisos, controle de ponto e apresentações mais refinadas.
No Nuu Nikkei, restaurante de Curitiba (PR) com foco em alta gastronomia, a batata-doce está presente em preparações que respeitam essa tradição e dialogam com a proposta autoral da casa. O ingrediente aparece, por exemplo, no ceviche Peruvian Classic, servido com peixe branco, cebola roxa, coentro e leite de tigre, finalizado com batata-doce e milhos peruanos, uma combinação que evidencia o contraste entre acidez, frescor e dulçor natural. A batata-doce também integra o ceviche La Mar, acompanhando camarão, peixe branco do dia e polvo grelhado, reforçando o equilíbrio do prato.
Segundo o chef da casa, Carlos Alata, a presença da batata-doce é pensada desde a concepção das receitas. “É um ingrediente fundamental na cozinha nikkei. Ela não entra apenas por tradição, mas porque tem uma função clara: equilibrar a acidez, trazer conforto e valorizar o sabor do peixe. Quando bem preparada e bem dosada, ela conecta todos os elementos do prato”, explica.
Para o chef, a combinação ideal envolve pescados delicados, cítricos e pimentas suaves. “Ela harmoniza muito bem com peixes brancos, camarões e molhos cítricos. É um ingrediente simples, mas que exige respeito técnico para funcionar da forma correta. Entre tradição ancestral e técnica contemporânea, a batata-doce segue como um dos pilares silenciosos da culinária nikkei — provando que ingredientes familiares podem ganhar novos significados quando tratados com precisão e propósito”, completa Alata.
Fonte: Sandra Solda



