Uma técnica baseada na aplicação controlada de luz ultravioleta do tipo C (UV-C) modulada pode representar um avanço significativo no manejo pós-colheita da goiaba, fruta amplamente produzida e consumida no Brasil. O equipamento inovador de aplicação de UVC modulado foi construído pelo pesquisador Washington Melo da Embrapa Instrumentação e o estudo publicado na revista científica Horticulturae demonstra que a modulação da frequência da radiação UV-C é capaz de reduzir a incidência e a severidade da antracnose, sem queimar a casca, além de retardar o amadurecimento e preservar a qualidade dos frutos durante o armazenamento.
A antracnose, causada por fungos do complexo Colletotrichum gloeosporioides, é considerada a principal doença pós-colheita da goiaba. As lesões escurecidas que surgem na casca e evoluem para podridões comprometem a aparência e a textura da fruta, gerando perdas expressivas ao longo da cadeia produtiva. Atualmente, o controle depende majoritariamente do uso de fungicidas, prática que enfrenta restrições regulatórias e crescente rejeição de consumidores e mercados importadores.
Diante desse cenário, pesquisadores avaliaram a luz UV-C modulada como uma alternativa sustentável, não química e de baixo impacto ambiental para o controle do patógeno e a conservação da fruta após a colheita.
Frequência da luz faz diferença
De acordo com Itala Silva, doutoranda da Universidade Federal da Bahia (UFBA), nos ensaios laboratoriais, o fungo foi exposto a diferentes frequências de radiação UV-C. Os resultados mostraram que a modulação da luz teve efeito direto sobre o patógeno, inibindo o crescimento micelial e reduzindo a germinação dos esporos, estruturas responsáveis pela disseminação da doença.
A frequência em torno de 30 hertz apresentou o melhor desempenho, com forte redução da viabilidade do fungo. “A radiação interfere em processos celulares essenciais, como a integridade do DNA e a atividade metabólica, tornando o patógeno menos capaz de infectar o fruto”, explica Itala Silva.
“Ao modular a frequência, conseguimos aumentar a eficiência da luz UVC do controle do fungo sem elevar a dose total de radiação”, destaca a pesquisadora. “Isso reduz a dose e o risco de danos ao fruto e amplia a segurança do tratamento.”
Resultados positivos em frutos
Além dos testes in vitro, a equipe aplicou a tecnologia em goiabas recém-colhidas, acompanhando o desenvolvimento da antracnose e a qualidade dos frutos durante o armazenamento. As goiabas tratadas apresentaram menor incidência e severidade da doença em comparação às frutas não tratadas.
O tratamento também não comprometeu atributos importantes da qualidade pós-colheita. As análises mostraram que os frutos mantiveram por mais tempo cor mais verde da casca, menor perda de firmeza e taxa respiratória reduzida, indicando um metabolismo mais lento e retardo no amadurecimento.
“Esses indicadores são fundamentais do ponto de vista comercial, porque refletem maior vida útil e melhor aparência da fruta no ponto de venda”, observa Daniel Terao, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente. “A manutenção da firmeza e da coloração sugere que a tecnologia pode ajudar a reduzir perdas durante transporte e armazenamento e aumentar o tempo de vida de prateleira da fruta.”
Durante até sete dias de armazenamento, não foram observados sintomas da doença e danos visuais ou alterações indesejáveis causadas pela radiação, reforçando o potencial da técnica para uso prático.
Alternativa limpa ao controle químico
O estudo reforça o papel dos tratamentos físicos no manejo pós-colheita, especialmente em um contexto de transição para sistemas agrícolas mais sustentáveis. Diferentemente dos fungicidas, a luz UV-C não deixa resíduos químicos, não gera efluentes e não contribui para o desenvolvimento de resistência nos patógenos.
“A UV-C modulada se destaca por ser uma ferramenta limpa, com potencial de fácil integração às linhas de beneficiamento”, aponta Terao. “Ela pode complementar outro tratamento e reduzir a dependência de fungicidas no pós-colheita.”
Embora o uso da radiação UV-C convencional já tenha sido estudado em frutas e hortaliças, a modulação da frequência surge como um diferencial importante, pois permite maior eficiência com menor intensidade de luz, sem causar danos à epiderme da fruta, ampliando a margem de segurança do tratamento.
A goiaba é uma fruta altamente perecível, e as perdas pós-colheita representam um desafio tanto para produtores quanto para atacadistas e varejistas. Tecnologias capazes de prolongar a vida útil e reduzir doenças podem gerar ganhos econômicos relevantes e contribuir para a segurança alimentar.
Além disso, a redução do uso de fungicidas atende às exigências de mercados que demandam produtos com menor carga de resíduos e produção alinhada a princípios da economia verde.
“O controle eficiente da antracnose sem o uso de produtos químicos é estratégico para ampliar a competitividade da goiaba em mercados mais exigentes”, ressaltam os pesquisadores .
Próximos passos
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores destacam que ainda são necessários testes em escala comercial, para ajustar parâmetros como tempo de exposição, distância da fonte de luz e adaptação dos equipamentos às rotinas de packing houses.
O estudo, no entanto, abre caminho para a aplicação da luz UV-C modulada não apenas em goiabas, mas também em outras frutas suscetíveis a doenças pós-colheita, consolidando a tecnologia como uma ferramenta promissora para a agricultura sustentável e inovadora.
Fonte: Assessoria de Comunicação – Embrapa



