Produção de codorna conquista cada vez mais mercado goiano

Do prato simples ao sofisticado. A carne e os ovos de codorna estão conquistando cada vez mais os paladares dos consumidores goianos. Embora ainda embrionário, o mercado das poedeiras em Goiás se mostra promissor, já que a coturnicultura requer baixo investimento e pequena área para o manejo.

O setor em Goiás inclina para a criação de codornas de postura, ou seja, a produção de ovos. Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes a 2015, mostram que o Estado produziu 8,5 milhões de dúzias de ovos de codorna, o que representou 69% da produção da região Centro-Oeste. Comparado ao país, a produção goiana ficou em oitavo lugar no ranking, que é liderado por São Paulo. No efetivo de aves, Goiás acumulava naquele ano 430 mil cabeças e o país atingia a marca recorde de 21,99 milhões de cabeças, registrando um aumento de 8,1% frente a 2014.

De acordo com o criador e presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Aves de Raças (ABC Aves), João Germano de Almeida, as projeções do mercado nos Estados produtores a partir de 2015 são de crescimento. “Percebemos um aumento constante a cada ano. Em 2017, especialmente, vamos ter uma elevação mais acentuada por conta do desemprego. É um negócio com rápido retorno e pode ser gerido por qualquer membro da família, sem dispensar, claro, cuidados com o manejo”, disse.

E foram esses bons motivos que fizeram Josias Pereira de Azevedo, à frente da granja Josidith, mirar na criação de codornas há oito anos. Atualmente, a granja é uma das maiores produtoras de ovos de codorna e de galinha do Centro-Oeste, com mercados consolidados em Brasília, Pará, Minas Gerais, Tocantins, Amapá, Maranhão e Goiás. O plantel de codornas é de 415 mil aves da espécie japonesa, a mais comum para a postura no país. A produção média é de 240 mil ovos por dia.

 codorna josidith

Gerente de vendas da Josidith, Elci Donizzete, atribui sucesso do negócio à qualidade do produto ofertado

Os maiores clientes da granja são supermercados, buffets e cozinhas industriais, que fazem a conserva. O gerente de vendas da empresa Josidith, Elci Donizzete do Prado, atribui o sucesso do negócio à qualidade do produto ofertado. “Nós fomos conquistando o mercado pouco a pouco assim que passamos a profissionalizar nossa produção com processo de automação, investimentos em equipamentos e, principalmente, cuidado no manejo, que é uma das partes mais importantes. A codorna é uma ave muito sensível e, se não recebe o devido cuidado, aumenta a mortalidade e reduz a produção”, explicou.

A granja compra a codorna com um dia de vida de incubadoras de Brasília exclusivamente para a fase de postura, que se inicia entre o 35º e 42º dia de vida. Até este estágio, a alimentação da codorna é fundamental para manter a saúde e a produção. Pensando nisso, a granja fabrica a própria ração. “Terceirizar é um risco incalculável, pois qualquer quantidade alterada de um dos itens na produção de ração reflete muito na produção. O risco não compensa”, explica Euci, que acredita no barateamento do custo de produção em até 20% com a fabricação própria de ração.

Especialista em Vigilância Sanitária e Controle de Qualidade e instrutor na área de Avicultura do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar Goiás), o zootecnista Gustavo Milanez explica que a ração corresponde a cerca de 70% do custo e a fabricação deve ser avaliada, já que para o pequeno produtor o investimento será alto e com uma certa demora para retorno. “Por isso, o planejamento é ideal. Uma boa alimentação interfere até no tempo de serviço da ave. É bom ressaltar que ração não é receita de bolo. O tipo de animal, ambiente e outros fatores interferem nessa produção”, frisou.

Rentabilidade

A granja Josidith não disponibilizou os valores de lucratividade da granja, mas Elci disse ser alta uma vez que os custos também são diluídos com a criação de galinhas. Mesmo para pequenos produtores ou iniciantes, o negócio se mostra atrativo e pode ser um complemento de renda, como fez o analista de desenvolvimento rural da Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater) e produtor rural de Corumbaíba, Valtemir Bento da Silva.

Há um ano, ele investiu mil reais na compra de 100 codornas já em fase de postura, estrutura e ração. Segundo ele, em 60 dias, o dinheiro aplicado já havia entrado em caixa. Atualmente, com 300 codornas produzindo, em média, 270 ovos por dia, o lucro livre mensal é de R$ 1.350 se forem vendidos in natura por R$ 5 a caixa com 30 ovos. “É uma renda extra que ajuda nas despesas de casa. Eu e minha esposa cuidamos de tudo, mas quando minha produção aumentar, espero contratar um ajudante”, afirmou.

Valtemir vende tudo que produz para supermercados, feiras e consumidores da região. Nos últimos meses ele agregou valor ao produto e aumentou a lucratividade em 200%.” Além das caixas, nós oferecemos ovos cozidos e descascados diretamente para clientes e bares. Embalamos tudo e vendemos 30 ovos por R$ 10. Não usamos conservantes, por isso buscamos vender toda a produção do dia”, pontuou Valtemir.

 Legislação

A criação de codornas para fins de subsistência ou de comércio é regulamentada pelas Instruções Normativas Federais 10/2013 e 56/2007 e pela estadual 04/2010, da Agrodefesa. Entre os critérios para a comercialização, a regulamentação em Goiás estabelece que o produtor faça uma inscrição junto à Agrodefesa antes de iniciar a atividade e apresente diversos documentos, entre eles os registros de procedência das aves. De acordo com a coordenadora do Programa Estadual de Sanidade Avícola (Pesa)/Gerência de Sanidade Animal da Agrodefesa, Silvânia Andrade Reis, esse documento evita que aves para postura sejam compradas em lojas agropecuárias. “Quando o objetivo da criação é a comercialização, o produtor precisa ter a Guia de Trânsito Animal (GTA). Quando a ave vai para lojas de agropecuária, ela perde esse certificado por ficar em contato com várias outras aves e por isso suscetível a diversas doenças”, explicou.

Ela instrui o produtor a procurar um incubatório registrado no Ministério da Agricultura para começar o plantel e informa que em casos de descumprimento das normas, o proprietário está sujeito a multa. “Antes da autuação, o médico veterinário pontua o que deve ser feito durante uma visita na propriedade e dá um prazo para readequações. Esse trabalho preventivo que visa vistoriar parte documental e física pode evitar, por exemplo, a mortalidade das codornas, já que 10% dos casos de morte que recebemos é por estresse calórico. Então, não é simplesmente alojar as aves. É necessário um manejo adequado, com circulação de ar, temperatura correta, água, comida, entre outros”, ponderou.

Um dos poucos incubatórios registrados em Goiás é o do produtor José Gervásio, que mantém 30 mil codornas em uma fazenda em Terezópolis. Ele possui a chocadeira elétrica e o negócio é voltado exclusivamente para a venda de matrizes. Cada ave, já prestes a entrar na postura é vendida de R$ 4 a R$ 5. “Estamos no mercado há 25 anos e considero uma tímida evolução do setor a cada ano. O mercado é extenso e o produtor de Goiás precisa se especializar”, disse. As chocadeiras são necessárias porque a codorna não choca em cativeiro. Para quem quer investir nessa área, é necessário a ajuda de um profissional, uma vez que os ovos precisam de cuidados específicos, como a regulagem de temperatura. José também conta com uma fábrica de ração na fazenda pelo fato do plantel ser grande.

Carne exótica

Apesar da codorna de postura poder ser aproveitada como proteína, o animal próprio para corte tem outras características, sendo maior e mais rico em carne. De acordo com a Agrodefesa, Goiás não possui abatedouros especializados em codornas e certificados com o selo do Serviço de Inspeção Federal (SIF), e por isso as aves criadas em granjas são vendidas para fora do Estado ou descartadas depois de aproximadamente um ano de produção. “Esse abate requer uma estrutura adequada. Não dá para ser compartilhada com o mesmo local de frangos. Então isso implicaria na aquisição de equipamentos e toda uma estrutura, investimento alto para um pequeno e médio produtor, que mesmo assim não consegue competir com produtores grandes fora do Estado”, diz o zootecnista Gustavo. Segundo ele, o desafio, além da questão do abate, é criar o mesmo hábito de consumo que se deu com os ovos.

No restaurante Pérolas do Sabor, em Goiânia, o cardápio inclui, há 10 anos, ovos e a carne de codorna assada na brasa e no forno. A carne exótica entra no cardápio apenas aos finais de semana junto com outras iguarias. “Desde que começamos a oferecer essa carne, tivemos boa aceitação. É muito saborosa, mas requer técnicas de preparo”, afirmou o chef de cozinha Edinilton Curt Rauh, responsável pela cozinha do estabelecimento. Ele conta que a procura ainda é baixa quando comparada com a demanda de outras carnes oferecidas pelo restaurante e atribui isso à pouca divulgação. “É um produto diferenciado, mas com preço bom. Acho acessível e só não é mais procurada porque não é evidenciada como a carne de boi e frango”.

O fornecedor do restaurante é uma marca brasileira de alimentos frigoríficos, que faz o abate em São Paulo. O chef explica que compra esse produto de fora porque Goiás não tem fornecedor qualificado. “Seria ótimo para nós e para o Estado ter uma empresa credenciada que fizesse o abate, porque nós presamos muito pela procedência do que servimos aos clientes”, disse.

Curso

O assunto é tão embrionário que o primeiro curso de Coturnicultura do País foi realizado em julho deste ano pelo Senar de Minas Gerais. A capacitação teve o objetivo de levar conhecimentos técnicos e habilidades na criação de codornas a produtores e estudantes universitários dos cursos de zootecnia, veterinária e agronomia da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). A capacitação abordou o preparo do galpão de cria e recria, recepção das pitainhas, manejo nas fases de criação, programa de luz, identificação de poedeiras produtivas, padronização de ovos, controle integrado de vetores, controle sanitário, avaliação do desempenho dos lotes e planejamento de produção. Em Goiás, o Senar planeja a realização de um curso semelhante, mas ainda sem data prevista.

Texto: Kamylla Rodrigues

Fotos: Larissa Melo

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