A onda antitecnológica na agricultura

Marcos Sawaya Jank (*)

 O Dr. Fernando Penteado Cardoso, fundador da Manah, é o decano dos engenheiros agrônomos brasileiros. Aos 102 anos, sua inteligência e lucidez são fenomenais.

 Comentando a minha coluna anterior, sobre os erros do Índice de Sustentabilidade de Alimentos da EIU-Barilla, no qual fomos punidos por usar fertilizantes e defensivos em demasia, ele me lembrou de que, sem correção de solos e adubação química, nunca teríamos ocupado os cerrados brasileiros, originalmente ácidos e muito pobres em nutrientes.

 Ele me enviou um texto incrível escrito por Norman Borlaug, o pai da “Revolução Verde”, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1970 em reconhecimento pelo seu trabalho no desenvolvimento de tecnologias para aumentar a produtividade da agricultura nos países em desenvolvimento.

 O texto “Agricultura, ecologia e a onda antitecnológica” foi escrito por Borlaug em março de 1996, mas não poderia ser mais atual. Ele critica o maniqueísmo dos ecofundamentalistas daquela época que defendiam velhos sistemas de baixa produtividade da agricultura de subsistência como mais “sustentáveis”. A onda antitecnológica seria baseada em adubação orgânica, variedades nativas propagadas pelos próprios agricultores e nenhum uso de defensivos.

 Vinte anos depois, o mercado e a competição selecionaram os agricultores mais eficientes. Milhões de produtores não tecnificados acabaram migrando para as cidades, o que transferiu boa parte da pobreza rural para o meio urbano. Mas a onda antitecnológica não desapareceu e hoje ganha novos contornos.

 Capitaneada por influentes grupos europeus, a nova onda vem de consumidores com maior poder aquisitivo que valorizam alimentos produzidos localmente com menor intensidade tecnológica, próximos dos centros de consumo e com mínimo impacto ambiental. Ela é composta por um vasto cardápio de sistemas alternativos de produção: orgânicos, free-range (criação de animais soltos, sem instalações), veganos, sem uso de defensivos, livres de transgênicos e de antibióticos, com baixa emissão de gases de efeito estufa, entre outros.

 Nessa toada, os vilões passam a ser as commodities e os alimentos importados, o uso de insumos modernos, os produtores de grande escala, os biocombustíveis e o consumo de carnes. Atacam-se os arrotos dos bovinos que causariam o aquecimento global, sem conhecer o ciclo das pastagens de alta produtividade que reduz emissões.

 Ataca-se a produção de soja e milho destinada à produção de rações, que supostamente alimentariam modelos “insustentáveis” de pecuária. Nas raias da loucura, afirma-se que a solução para alimentar o nosso planeta hiperpopuloso estaria em fazendas verticais em zona urbana e na produção caseira de proteínas à base de insetos comestíveis.

 Não tenho nada contra consumidores dispostos a pagar o dobro ou o triplo por alimentos com essas características. Trata-se de um segmento importante do mercado, principalmente nos países ricos.

 Meu problema está na afirmação de que essas opções seriam o “certo” e que tudo que se avançou em tecnologia e sustentabilidade da agricultura no último século estaria “errado”.

 Uma das maiores questões do século 21 é: como criar cadeias de suprimento eficientes para alimentar mais de 10 bilhões de pessoas, num contexto de recursos naturais escassos? O professor Borlaug dedicou a sua vida à única resposta plausível para essa pergunta: produtividade.

 É ela que gera segurança alimentar. É ela que reduz o desmatamento e que gera alimentos mais baratos que podem reduzir drasticamente a fome. É ela que evitaria as migrações maciças de pessoas a que temos assistido no mundo. É ela que gera a paz.

 E é nesse item que o Brasil avançou mais do que qualquer outro país, graças às tecnologias tropicais e à competência dos nossos agricultores.

 (*) Marcos Sawaya Jank é especialista em questões globais do agronegócio. Escreve aos sábados, a cada duas semanas.

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