O Coração do Solo

O manejo do solo é o sustentáculo da agricultura e da organização humana como sociedade. A eficiência deste processo deve nos permitir produzir alimentos e energia de forma sustentável com o menor impacto possível aos ecossistemas. No entanto, um dos componentes deste sistema, a fração viva do solo, ainda carece de maior conhecimento e consequente exploração tecnológica, conferindo ao mesmo grande potencial para inovações.

A visão do solo como algo vivo pode revolucionar a forma como fazemos seu manejo, e indicar o real impacto que este sistema sofre ao longo dos anos de cultivo sem qualquer cuidado a este importante componente do solo. A integração da biologia do solo com os componentes químicos e físicos é intensa, mas seu manejo é ainda pouco executado de maneira intencional.

 Ao contemplarmos os papéis dos organismos no solo em seu funcionamento, podemos verificar que estes executam muitos serviços que dão origem à produção exuberante e de alta qualidade. Porém, sua perda ao longo do tempo torna o sistema produtivo mais suscetível a deficiências e dependente da suplementação das necessidades do solo e da planta por meio da intervenção humana. É por este motivo que componentes biológicos do sistema, ou seus revitalizadores, têm sido comercializados atualmente como a solução de muitos problemas, e provocando nas plantas efeitos jamais vistos e/ou esperados. Por exemplo, a atividade microbiana intensa num solo dá origem a nutrientes de alta qualidade, como peptídeos, aminoácidos, ácidos orgânicos, além de uma série de moléculas estimulantes do desenvolvimento vegetal. Deriva-se desta observação, o fato de que em solos que mantêm a vida ativa, e que preservam a biodiversidade, estes elementos naturalmente ocorrem no sistema, e a demanda por sua suplementação artificial é reduzida. Em resumo, uma vez que permitimos a degradação biológica dos solos, somos prontamente chamados a fornecer ao mesmo uma série de compostos de maneira artificial, os quais eram, anteriormente à sua degradação, naturalmente encontrados no sistema e disponibilizados para as plantas.

 O questionamento que surge neste momento é sobre como degradamos o solo biologicamente. A degradação física do solo, ou seu esgotamento químico, são bem conhecidos. A recuperação da degradação destes componentes ou as formas de evitar suas degenerações são também determinadas e utilizadas com determinada eficiência. Ocorre, no entanto, que o solo tem sua fração viva, a qual é caracterizada por uma ampla biodiversidade. A manutenção da mesma e os cuidados para prevenir sua perda passam pelas bases do funcionamento deste sistema.

A manutenção da biodiversidade do solo está relacionada à disponibilidade de diferentes formas de nutrientes e condições ambientais para o desenvolvimento dos organismos do solo. Em sua grande maioria, estes organismos demandam matéria orgânica para sua nutrição, sendo o elemento mais limitante à atividade biológica do solo, o carbono. A forma mais intensa de fornecimento de carbono aos organismos do solo se dá pelas plantas. Estas nutrem a vida no solo não apenas via degradação de fragmentos vegetais, mas também e prioritariamente, por meio da exsudação radicular. Numa visão simplista e matemática deste processo, pode-se derivar que quanto maior for a biodiversidade de plantas, mais diversas são as formas em que o carbono ocorre no solo, e consequentemente uma maior biodiversidade pode se nutrir neste sistema, preservando os princípios de funcionalidade da fração viva no solo. No entanto, esta diversidade de plantas constitui um cenário distante do que observamos nas áreas de agricultura.

 O desenvolvimento da agricultura tropical, com destaque para a ocupação do cerrado, teve como um de seus pilares, a utilização da rotação de culturas. Os livros embrionários sobre o plantio direto já indicam que se este conceito não for aplicado, a agricultura no cerrado brasileiro terá vida útil reduzida. Porém, com o passar dos anos, e frente a cenários mais complexos, financeira e mercadologicamente, esta premissa perdeu-se parcialmente, levando a um sistema produtivo não mais embasado na rotação de culturas, mas na utilização de sucessão de culturas, compostas primordialmente por soja e milho, com participação de algodão em algumas áreas. Os efeitos da abdicação desta premissa na agricultura tropical são visíveis e conhecidos por todos, mesmo que suas causas sejam, na maioria das vezes, atribuídas a outros componentes do sistema produtivo. A compactação dos solos chega atualmente a dimensões impensáveis, e a ocorrência de novas doenças cresce em escala jamais observada. Pode-se atribuir a perda da biodiversidade do solo a muitos destes problemas. O maior de todos os exemplos é a ocorrência de nematoides em escala nacional. Não há culturas ou áreas onde este não seja um dos temas de maior preocupação para o produtor agrícola, especialmente no cerrado. Estes organismos, no entanto, proliferam-se deliberadamente em solos onde o equilíbrio biológico foi esgotado, encontrando terreno livre ausente de competição e onde podem assimilar os exsudatos radiculares mais livremente, completando assim seu ciclo vital. Há, porém, verdadeiros oásis, onde produtores que preservam os preceitos da agricultura tropical, cultivam suas plantas sem problemas radiculares e com maior viabilidade agrícola e financeira de uso de suas áreas, e sem a presença de nematoides.

 No entanto, de forma geral, o cenário atual é problemático. O sistema de produção sem o cuidado necessário para a parte viva do solo tende ao colapso, seja este financeiro ou produtivo. O aumento dos custos de produção, na busca de fornecer artificialmente ao sistema os serviços ambientais promovidos pelos organismos do solo, ou a inviabilidade de produção devido a limitações ao desenvolvimento das plantas, podem levar a agricultura moderna ao colapso. É tempo, portanto, de revisitar conceitos antigos, e dentro de nosso histórico de grandes novidades, reestabelecer as bases da agricultura tropical.

Numa analogia final, ao contemplarmos a degradação extensiva do sistema biológico dos solos utilizados para a agricultura, podemos imaginar que temos hoje um sistema em que extraímos o coração do solo, e o colocamos para funcionar de forma dependente de aparelhos. Reside, portanto, na melhor manutenção e exploração da biologia do solo, o pilar para o desenvolvimento de uma agricultura mais eficiente. Reside também neste componente um enorme potencial de inovação tecnológica, a ser explorado no desenvolvimento de produtos e conceitos que podem auxiliar a restabelecer a funcionalidade biológica dos solos, dando origem a uma agricultura mais produtiva e mais sustentável.

Fonte: Agro DBO

Por: Fernando Dini Andreote

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